Volatilidade eleitoral:  como o ciclo político  afeta ativos e projeções

Volatilidade eleitoral: como o ciclo político afeta ativos e projeções

Estudo da CNseg mostra que eleições aumentam a dispersão das projeções de mercado e , exigindo atenção redobrada dos investidores institucionais.

Por: Vagner Ricardo

Anos eleitorais costumam alterar o comportamento da economia. A incerteza aumenta a volatilidade dos ativos, leva a políticas monetárias mais cautelosas, freia investimentos produtivos e faz as projeções de mercado oscilarem ao longo das campanhas. Para investidores institucionais, como o mercado segurador, não se trata de um período de calmaria: é preciso monitorar riscos fiscais, estabilidade regulatória e decisões de política monetária, já que movimentos inesperados podem afetar retornos e estratégias de alocação.

 

Um estudo da Superintendência de Estudos e Projetos (Suesp) da CNseg confirma esse padrão. Nas últimas quatro eleições presidenciais, o desvio-padrão das projeções de PIB do Boletim Focus subiu, em média, 97%, mostrando maior divergência entre analistas. A volatilidade do câmbio e do Ibovespa também cresceu em três pleitos, refletindo sensibilidade aos riscos fiscal e político.

 

“Em contraste, a dispersão das projeções da Selic caiu 68%, indicando que o BC tende a manter juros elevados e previsíveis para ancorar expectativas inflacionárias. Já o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) teve comportamento misto (alta em 2010 e 2014 e queda em 2018 e 2022), reagindo mais a choques específicos do que ao calendário eleitoral”, explica o economista da Suesp, Eduardo Amendola Câmara.

 

EXPECTATIVAS 2026

Apesar de potenciais oscilações, a CNseg projeta normalização gradual dos ativos após a eleição de 2026, com Selic a 12,5%, IPCA perto de 4% e PIB em torno de 2%, caso a estabilidade fiscal e o ambiente externo permitam flexibilização monetária.

 

Para Eduardo Câmara, o fator decisivo seguirá sendo o fiscal. “Se houver reforço das metas e controle das despesas, o prêmio de risco tende a recuar, favorecendo uma redução antecipada dos juros. Se não, as incertezas fiscais devem prolongar a política monetária restritiva e manter os mercados voláteis, repetindo o padrão histórico que faz dos anos eleitorais brasileiros sinônimos de prudência monetária e de espera para investimentos”, declara ele.

 

Indicadores recentes também devem ajudar a reduzir a volatilidade em 2026: desemprego em recorde de baixa (de 5,4% no trimestre encerrado em outubro), inflação convergindo para o teto da meta, ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda (IR) para salários de até R$ 5 mil e descontos progressivos até R$ 7,3 mil, a partir do próximo ano, e o possível início da queda da Selic já em janeiro.

 

Como o eleitor comum acompanha mais de perto a inflação e o câmbio do que questões fiscais, a tendência é de percepção positiva no curto prazo — embora a dívida crescente exija reforma no governo que começará seu mandato em 2026, ressalta o economista Carlos Thadeu, diretor do Banco Central de 1986 a 1988.

 

“O ano novo deve ser de continuidade do bom desempenho de indicadores em curto prazo (câmbio e inflação mais estáveis em patamares menores), deixando as pessoas que não entendem da parte fiscal satisfeitas com o dólar e a inflação mais baixos”, pontua ele.

 

O economista Mauro Rochlin, da FGV, projeta crescimento modesto entre 2% e 2,2% e inflação e dólar mais controlados. A queda dos juros deve aliviar o crédito e estimular o consumo, apoiado pelo mercado de trabalho aquecido e pela maior oferta de crédito para as camadas de menor renda, impulsionada pelas fintechs. “No melhor cenário, o mercado diz que a Selic pode cair para cerca de 12%. Se nada escapar do previsto, 2026 deve repetir um ritmo de expansão mais modesto, muito próximo do que se imagina para o fechamento de 2025”, estima.

 

Apesar de alertas sobre dominância fiscal, o risco deverá ser menor em 2026 graças ao ambiente internacional favorável e ao forte aperto monetário iniciado no fim de 2024. Esses fatores contiveram o descontrole do período. “Ainda assim, a política fiscal segue expansionista e a relação dívida/PIB continua em alta, mantendo os juros necessários para convergir a inflação para a meta de dois dígitos. Minha projeção é de que 2026 termine com juros de aproximadamente 13% ao ano”, prevê o economista José Márcio Camargo.

 

No mercado de trabalho, Camargo atribui a queda estrutural do desemprego à reforma trabalhista de 2017. A taxa que não pressiona a inflação teria caído para 7,5% da força de trabalho, mas o mercado segue apertado, sobretudo em serviços, exercendo pressão inflacionária. A valorização do real compensa parte disso, mas, segundo ele, algum aumento do desemprego será necessário para reconduzir a inflação à meta.

 

Se 2026 aponta para um ano mais estável, o início do próximo governo exigirá ajustes. A reforma fiscal será inevitável: elevar tributos, cortar gastos obrigatórios ou combinar as duas medidas. Para 2027, a discussão sobre despesas, receitas e espaço para investimentos continuará central. Na avaliação de Carlos Thadeu, com a dívida pública elevada, a reforma estrutural ficará para o novo governo, que terá de agir já no segundo ano de mandato, provavelmente.